Lucila acredita que os processos técnicos da gravura vêm acompanhados de sua história ao longo das épocas, incluindo a sua longeva relação com os livros e com a palavra. Por isso, duas atitudes são convocadas simultaneamente ao ato dos seus "exercícios de apreensão". Uma, despertada pela pulsão (psicológica e física) causada pelas histórias lidas; outra, iluminada pelas referências, à luz da história da arte, nas quais essas mesmas histórias foram mediadas ou ilustradas pela gravura, por outros artistas. Em sua interpretação do Cântico dos Cânticos, a artista utiliza a possibilidade dada pelo meio (gravura em metal) de acolher as transformações numa mesma imagem, numa mesma matriz (a placa de cobre), para mostrar os encontros e desencontros dos dois amantes, elegendo da alegoria bíblica os elementos que traduzem a história para a sua compreensão como uma relação humana verdadeira e válida para qualquer idade ou lugar. O texto (ou fragmentos dele em alguma tradução recente) divide com as imagens o campo de representação numa espécie de dança que alegoriza o diálogo entre arte visual e palavra. Como o escrito se esgarça, ondulante, através das superfícies das matrizes de metal, acolhendo luzes, manchas e claro-escuros, é possível imaginá-lo, na sucessão do movimento comum à leitura ocidental, da esquerda para a direita, de cima para baixo (embora na matriz se dê o inverso), voando para fora do campo (da matriz ou da estampa), como se a palavra pudesse ganhar uma vida corpórea e participar do espaço que ocupamos. O texto é assim, trazido, como sinédoque do canto com uma voz e som, de seu local originário para a matriz de gravura, e desta para o espaço que ela ocupa, transmitindo a sensação de tempo transcorrido, ao mesmo tempo em que o reafirma imemorial.